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quinta-feira, 17 de abril de 2014

Da série: O cinema



 
Se existe algo ruim, pior que ouvir a voz daquela mulher da Top Therm, é ir ao cinema sozinho. Você deve ser extremamente maduro psicologicamente para não cair em uma profunda depressão e reflexão depois de ir sem nenhuma companhia para esse lugar, e mesmo assim, há chances de você ficar se sentindo um excluído solitário. Pode parecer que não, pelo fato de eu ser socialmente ativo, cheio de fans e super simpático - estou sendo irônico -, mas eu já fui ao cinema sozinho. Não vou negar que poucas vezes, talvez umas duas ou três, mas sim, já fui - e não estou sendo irônico.
Da última vez que pretendi ir ao cinema foi porque estava em cartaz um filme que eu realmente queria ver  e como nenhum dos meus amigos - reais e imaginários - quiseram ir comigo, fui sozinho mesmo.
" Eu sou uma pessoa legal, eu sou uma pessoa legal, eu sou uma pessoa legal..."  Assim que entrei no shopping, lugar que também odeio pela sua concentração de pessoas felizes, comecei a repetir, mentalmente, essa frase verdadeira, verídica e sincera " Eu sou uma pessoa legal, eu sou uma pessoa legal, eu sou uma pessoa legal... "
Subi um lance de escadas rolantes e comecei a andar em direção a bilheteria, passando por casais melosos,adolescentes escrotos, idosos de bengalas e crianças catarrentas.
Depois, já com o ingresso na mão, fui comprar a pipoca e o refrigerante.
" Eu estou aqui sozinho, por opção." pensei, cético " Poderia ter convidado várias pessoas, mas estou aqui por opção. Eu sou bonito, alto, tenho dentes e tomo banho quase todos os dias. Tenho condições suficientes para não ter vindo sozinho se quisesse. Eu sou uma pessoa legal, eu sou uma pessoa legal... "
Cheguei ao lugar onde se pode comprar pipoca, refrigerante e chocolate antes de ir assistir o filme, que agora eu esqueci o nome.
" Sim, isso mesmo, eu estou aqui no cinema sozinho, mas tudo bem. Não há nada errado de vim ao cinema sozinho. Além do mais, podia ser pior, eu poderia encontrar alguém e..."
- Daniel?
" Aí meu Deus, não, puta merda." Alguém havia me chamado. " Droga. "
Me virei e vi que quem me chamou foi um colega do tempo da escola. Anderson, um garoto que estudou comigo na sétima e oitava série. Estava acompanhado com uma garota. Fazia muito tempo que não nos víamos, mas mesmo assim o maldito me reconheceu. Nós nem éramos amigos.
- Daniel? - repetiu ele. - Anderson, da escola.
- Eu lembro de você - " infelizmente" - Tudo bem com você?
- De boa e você? Tá diferente.
- É, mudei um pouquinho - " maldito, miserável, escroto, o que você tá fazendo aqui? " - Tem visto alguém da escola?
- Só alguns moleques mesmo. Ah deixa eu te apresentar - e apontou para a garota ao seu lado. - Essa daqui é Alessandra, minha namorada.
- Tudo bem? - cumprimentei, rezando para sair dali o mais rápido possível.
- E você veio com quem? -perguntou o cretino.
" Maldito, filho da puta. Quem falou que pra vim ao cinema precisa estar acompanhado? Eu sou um cara legal, eu sou um cara legal, eu sou um cara, ah foda-se "
- Bom - comecei, vendo que não tinha outro jeito se não mentir - eu vim com alguns amigos, sabe?
- Legal, mas cadê eles? - Foi a vaca da namorada dele, Alessandra, que perguntou dessa vez.
- Ah... eles estão... - " droga, o que eu faço? Estou sozinho aqui, o que eu faço? O que eu faço? O que eu faço? " - ééé... - foi quando vi uma dupla, uma garota loira e um garoto topetudo perto de um banner. - Ali - e apontei para esses dois. - Vim com eles, meus amigos. Grandes amigos - e tentando mudar de assunto. - Vocês vão assistir qual filme?
- Ainda não sabemos - respondeu Anderson. - Primeiro vamos dar umas voltas pelo shopping. Preciso comprar um presente pra minha mãe.
- Entendi. Bom, eu preciso ir, foi muito bom te... - mas parei de falar porque o pior aconteceu. A dupla que eu havia dito serem meus amigos, a loira e o topetudo, se aproximou, ficando praticamente ao meu lado. Fiquei sem reação, com o cu na mão. Eles eram meus "amigos" eu se eu saísse assim, sem mais nem menos é claro que o Anderson e a namorada dele iriam notar a mentira.
- Seus amigos - apontou Alessandra.
Os dois, o topetudo e a loira olharam, percebendo que eram com eles que ela havia se referido.
- É, é mesmo - e, não entendendo até hoje da onde eu consegui ser tão sínico. - Olá pessoal. Eu já iria comprar a nossa pipoca - eu disse para os meus agora amigos, o topetudo e a loira.
Os dois me olharam com uma cara de total estranheza.
- Desculpa... - começou a dizer o topetudo, mas eu rapidamente o cortei.
- Calma, o filme ainda não vai começar éééé Elvis - foi o primeiro nome que veio na minha cabeça.
- Elvis?  É uma homenagem ao Elvis Presley? - Anderson, maldito, questionou.
- Mas meu nome... - mas eu novamente cortei o agora Elvis.
- Sim, sim, sim, claro que sim - meu estômago revirava. Eu falava feito um louco desvairado. Eu tentava manter a normalidade, mas era impossível - Uma homenagem ao Rei do Rock - e tremendo levemente os meus lábios com toda aquela mentira. - E essa daqui é... Julia, o nome dela é Julia.
- Olha, desculpa mesmo, mas eu acho que... - dessa vez foi a loira, batizada por mim de Julia, que começou a contestar, mas novamente eu fui mais rápido.
- Deixa eu explicar meus amigos, meus grandes e fies amigos. Nós, e eu disse NÓS, viemos juntos para o cinema e eu acabei encontrando o Anderson, que estudou comigo e sua namorada - e apontei para o broxa e a vaca. - Mas eles já estão indo não é Anderson, NÃO É?
- Olha eu não te conhe...- Quando Julia iria dizer a verdade eu me transtornei.
- HA HA HA HA HA AH, ah Amanda - e lembrando que na verdade o nome dado para ela por mim foi Julia - Quer dizer Julia, seu nome é Julia. Então, JULIA, você é muito legal, muito legal - e passei o braço envolta do pescoço da Julia, rezando para o topetudo não ser o namorado dela. - Você é muito engraçada mesmo - e pra não correr risco. - Vocês -  e puxei o Elvis - são muito legais, muito legais. Vieram comigo ao cinema, comigo. Eu não vim sozinho, feito um doente, depressivo e carente. Não, não e NÃO. Elvis e Aman..., Julia, JULIA, me conhecem há muito tempo, muito tempo.
Olhei para Anderson e sua namorada e os dois me olhavam estarrecidos.
- Bom - eu percebi que eles ficaram desconfiados, mas não poderiam provar nada. - Precisamos ir agora. Foi muito bom te rever Daniel, e prazer em conhecê-los Elvis e...
- Aman, Julia, o nome dela é Julia. J-U-L-I-A. - e instintamente apertei os dois, Elvis e Amanda, que dizer Julia, JULIAAAAAAAAA, ainda mais.
- Ok, prazer, prazer.
E sem dizer mais nada, Anderson e sua namorada saíram.
Quando percebi que eles já haviam se misturado com a multidão, que não podiam mais me ver, soltei o Elvis e a Julia, quer dizer Aman, não tá certo mesmo, é JULIA. Soltei os dois, olhei para eles extremamente envergonhado e simplesmente falei para Elvis e JULIA:
- Eles são malucos né? Bom, espero que vocês assistam um ótimo filme. Obrigado
E saí, meio tonto pela adrenalina.


Moral da história: Eu sou uma pessoa legal, eu sou uma pessoa legal, eu sou uma pessoa legal.
 
 

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Da série: Na hora de ir dormir


      " Ok, hora de ir dormir." pensei " Se eu for dormir agora, eu vou dormir oito horas. Beleza. Vou descansar e conseguir ir pra faculdade de boa."
   Cinco minutos depois.
   " Eu vou dar uma olhada rapidinha no meu twitter." Peguei o meu celular e me conectei a rede social mais, na minha concepção, abundante em pessoas carentes, depressivas e que só escrevem putaria, o que me faz gostar ainda mais do TT. " Olha que babaca, nem sabe escrever... Essa é uma vaca escrota, só posta merda... Esse é firmeza, mas curti funk que pena... Vou aproveitar e olhar o meu Instagram também..."
   E assim o tempo foi passando.
   " É melhor eu ir dormir." decidi, olhando para o relógio " Se eu dormir agora eu consigo dormir um pouco mais de sete horas. Tudo bem, ainda vou conseguir descansar..."
   Dois minutos depois.
   " Putz, esqueci de ver as mensagens no meu WhatsAPP " Peguei, novamente, o meu celular. " Essa minha foto de perfil ficou muito boa, hehehe. Eu sou o cara. Tudo bem eu sei que tenho os olhos miúdos, a boca de jacaré e dois bifes no lugar das orelhas,  mas enfim, eu sou lin... deixa pra lá. Duas mensagens recebidas, deixar eu ver quem..."
   E o tempo continuou passando.
   " Que sede, vou beber água."
   Saí da minha cama, deixando o meu aparelho no quarto e fui até a cozinha. Lá aproveitei e fiz uma boquinha - uma caneca de café com leite e três pães. Alimentação Básica.
   Voltando para o meu templo.
   " Deixe eu ver as horas... Putz se eu dormir agora vou dormir seis horas e trinta minutos... é melhor eu ir dormir"
   Cinco minutos depois.
   " Eu bem que podia assistir um pornôzinho antes de dormir." Porém comecei a ponderar " Mas, se eu assistir mesmo que seja aqueles filminhos bem vagabundos vou ter que trocar o óleo."Nessa hora eu não pensei com essas palavras, mas estou com vergonha de escrever masturbação. Pera aí, eu acabei de escrever mastur... deixa pra lá.
   Fiquei nessa dúvida por dez minutos quando me deu vontade de ir no banheiro. Fazer xixi, apenas isso... é sério em.
   Voltei pra minha cama decidido a dormir.
   Quando estava quase dormindo, finalmente apagando o consciente, recebo mensagem no meu celular.
   " Porra não vou conseguir dormir mesmo em. Não vou ler a mensagem, não vou. Mas se for importante. Foda-se preciso dormir. Mas pode ser algo realmente..." e passei uns dez minutos até que decidi ver o SMS. " A operadora me mandou mensagem essa hora? Vão se fuder, eu preciso dormir. Olha" e reparei nas horas " se eu dormir agora eu vou dormir  menos de seis horas. Não, eu tenho que dormir agora e ponto final..."
   Passaram-se dez minutos.
   " Minha vida é tão vazia. Deus por que eu sou tão fútil e... Quando eu for rico vou ajudar as pessoas, porque preciso ser amado e... Muito obrigado, esse Grammy de cantor mais talentoso e bonito do século que ganhei...  " E fiquei nos meus devaneios, que é muito normal aparecerem antes de ir dormir, por muitos e muitos minutos.
   " Caramba" voltei em si " Já é essa hora. Eu preciso dormir agora, vou dormir menos de cinco horas. Caralho, vou ficar com sono pelo dia..."
   Cinco minutos depois.
   " Eu vou olhar meu twitter bem rápido, só mais uma vez!"
   E mais uma vez caí no engodo.
   " Porra, caralho, merda, só vou conseguir dormir quatro horas, quatro horas. Merdaaaaa. Vou dormir agora, sem mais"
    E quando estou quase começando a sonhar meu celular começa a tocar.
    " Bosta, merda, Porraaaa, quem está me ligando agora? Se bem que como já é tarde deve ser algo urgente." E atendi a ligação.
   - Alô?
   - Alô, aí é da casa do Luciano? - pela voz era uma senhora.
   - Não, acho que você ligou errado.
   - Ah desculpa.
   E assim a mulher encerrou a ligação.
   Passaram-se dois minutos e novamente meu celular começa a tocar.
   - Alô?
   - Aí é da casa do Luciano?
   - Não senhora você ligou errado de novo.
   - Ah desculpa.
   E assim a velha desligou.
   Três minutos depois, meu celular volta a tocar.
   - ALÔ!!! - não aguentei e perdi a paciência.
   - Aí é da casa do Lucia...
   - MINHA SENHORA AQUI NÃO É A CASA DESSE FILHO DA PUTA - eu realmente gritava. - VOCÊ JÁ ME LIGOU VÁRIAS VEZES, NÃO TEM O QUE FAZER NÃO?? OLHA A HORA, EU QUERO DORMIR. JÁ É TARDE E EU ACORDO CEDO.
    - Nossa como você é grosso.
   - GROSSO?? EU TÔ AQUI PARECENDO UM ZUMBI, QUERENDO DORMIR E VOCÊ FICA ENCHENDO O SACO. ESSE TAL DE LUCIANO DEVE ESTÁ DORMINDO, TRANSANDO, CAGANDO, SEI LÁ, DEVE TÁ FAZENDO QUALQUER COISA E COM CERTEZA ELE NÃO QUER FALAR COM VOCÊ. ENTÃO POR FAVOR, VÁ DORMIR"
   - Mas eu não...
   - BOA NOITE.
   E desliguei o telefone.
   Olhei para as horas.
   " Se eu dormir agora só vou dormir três horas e quarenta minutos. Quer saber, foda-se, vou ficar acordado nessa bosta e..."
   Cinco minutos depois lá estava eu rocando feito um porco - Sqn.

Moral da história: Quando for dormir, desligue, quebre, doe ou jogue no lixo seu celular.



domingo, 24 de novembro de 2013

Da Série: A velha, mas não tão velha assim

 
 
   Quando estou sentando no ônibus ou metrô, mesmo se não estiver cansado, eu não saio do meu lugar para fornecê-lo aos outros. Um, porque provavelmente eu lutei por ele. E dois, porque não quero ir em pé. Mas quando os bancos preferencias, TODOS, estão ocupados e vejo algum idoso, ou deficiente, espero para ver se alguém vai levantar. Se eu perceber que ninguém vai tomar a gentileza, levanto, com muito esforço e raiva, mas dou o meu lugar para o necessitado. Só assim, forneço o meu aconchegante e precioso banco.
   Eu estava sentando em um dos bancos do metro, lendo um bom livro - Harry Potter e a Ordem da Fênix, de novo.
   Percebi que uma senhora velha, mais não tão velha assim, entrou. Ela devia ter no máximo uns 55 anos. Ela ficou bem do meu lado, em pé, pois o vagão não estava cheio, porém todos os bancos estavam ocupados.
   Depois de alguns segundos, percebi que a senhora ficou me olhando. Parecia que queria dizer algo.
   Eu fiquei na minha. Continuei lendo o meu livro.
   A velha, mais não tão velha assim, percebeu que eu não estava dando atenção. Então começou a resmungar.
   - Nossa que calor. Meu Deus, ninguém me oferece um lugar...
   Olhei para frente, para dois assentos preferencias, que já estavam ocupados. Contudo um dos usuários era uma moça, jovem que não demostrava ser deficiente e muito menos que estava gravida.
   "Eu não vou fornecer o meu lugar" pensei. "Com aquela moça ali sentada. Se a velha quiser sentar, que vá lá e reclame com ela".
   - Nossa que povo folgado. Sem educação e respeito aos mais velhos. Eu mesma...
   A velha, mais não tão velha assim, continuava a reclamar, porém ela olhava para mim. Como se aquela oratório e insultos fossem direcionadas para mim.
   Eu baixei a cabeça, e continuei a minha leitura.
   A senhora, provavelmente insatisfeita com o desprezo que dei à suas palavras, começou a me cutucar com o seu guarda chuva. Me deu três cutucadas seguidas.
   Parei de ler, olhei para ela, pensei em dizer algo, mas decidi me calar.
   A iminente idosa, satisfeita em ver que conseguiu minha atenção, me deu novas três futucadas.
   Não resisti. Pousei o meu livro, olhei para a senhora e com educação disse:
   - Senhora, você está me cutucando com o seu guarda-chuva.
   - Sim estou - reconheceu a senhora, com aspereza. - Só assim pra conseguir sua atenção. Você podia muito bem fornecer o seu lugar.
   - Eu? - estranhei, inesperado com a atitude da senhora.
   - Sim, você. Você podia deixar de ser preguiçoso e levantar daí.
   - E porque eu faria isso? - eu estava começando a ficar envergonhado, porque os mais achegados, estavam ouvindo, mas mantive a calma sem demostrar displicência.
   - Porque eu tenho preferência seu moleque. Olha pra minha idade.
   - Preferência? Me desculpa, mas eu não tenho culpa de você ser uma velh...idosa - remedei. - E além do mais - nessa hora apontei para os bancos preferencias - os lugares preferencias são aqueles ali. Eu não tenho obrigação nenhuma de te fornecer esse banco.
   - Haaaa mais como você é petulante meu filho -a velha, mais não tão velha assim, estava visivelmente irritada.
   - Eu sou petulante? A senhora que é ranzinza.
   - Deixa, deixa, não quero mais sentar não. Obrigada por sua gentileza - obviamente ela estava sendo irônica. - Tenho muito mais disposição é vitalidade do que você, que ainda é jovem.
   - Se você realmente fosse tão disposta assim, não estaria brigando por um banco - rebati.
   A senhora me olhou com ódio mortal. Pensei que tentaria perfurar a minha cabeça com aquele guarda-chuva. No instante seguinte, ela disse, com a voz mais calma.
    - Meu filho, um rapaz tão bonito como você, falando isso pra mim.
   - Sério que você me acha bonito? É éé quer dizer, senhora eu não quis te ofender, só acho injusto eu ter que dar o meu lugar. - e novamente apontei para os bancos à minha frente.
    A velha, mais não tão velha assim, olhou para os bancos preferenciais. Viu a moça que estava sentada lá. Eu jurava que a jovem, ao contemplar a discussão, deduziria que no final sobraria pra ela, e fingiria estar dormindo. Porém, a burra, ficou olhando todo o bate boca, e não pode fazer nada. Quando a quase idosa se encaminhou para ela, a jovem nem fez questão, e se levantou, colocando, enfim, um ponto final na discussão.


Moral da história. A velha era velha, mas não tão velha assim.